Do Super Bowl ao trabalho no escritório: a vida atípica dos árbitros da NFL
O que um investigador de fraude fiscal, um fisioterapeuta e um vendedor de seguros de saúde têm em comum? Todos serão árbitros no Super Bowl do próximo domingo (8), entre New England Patriots e Seattle Seahawks.
Poucas pessoas sabem que a NFL, uma organização multibilionária do esporte, tem a peculiaridade de empregar árbitros em regime temporário, mesmo nos jogos mais importantes.
No domingo, o principal espetáculo do futebol americano será arbitrado por juízes como Shawn Smith, que de segunda a sexta trabalha como gerente da filial de Detroit de uma empresa de seguros de saúde.
"Eles sempre foram contratados em regime temporário", explica Ben Austro, fundador do Football Zebras, um site que acompanha os árbitros da NFL e suas decisões.
"Você vai encontrar advogados, professores (...) ou empreendedores que têm a oportunidade de tirar um tempo de folga do trabalho".
A poderosa liga chegou a contratar pilotos de avião, controladores de tráfego aéreo e até mesmo um cientista aeroespacial.
No entanto, explica Austro, os árbitros da NFL são o 'crème de la crème'.
A liga os seleciona meticulosamente no futebol americano universitário através de uma vasta rede de olheiros. Eles são treinados e avaliados, e dedicam entre 40 e 50 horas por semana à preparação para atuarem como árbitros durante a temporada.
"Não é como se disséssemos: 'Ah, chegamos à cidade ontem à noite, jantamos um bom bife e depois simplesmente fomos para o campo por três horas'", explica Austro.
- "Trabalho difícil" -
O lado menos agradável é que, como qualquer juiz esportivo, os árbitros da NFL recebem críticas e, às vezes, seu tipo de contrato os torna um alvo fácil.
"Os árbitros são os piores (...) Esses caras são advogados. Eles também querem aparecer na TV", disse Puka Nacua, wide receiver do Los Angeles Rams, em dezembro.
"Você não acha que eles estão mandando mensagens para os amigos em um grupo de bate-papo dizendo: 'Você viu que eu estava no Sunday Night Football?'", acrescentou.
A acusação de Nacua, feita durante uma transmissão ao vivo, lhe rendeu uma multa de US$ 25 mil (R$ 130,5 mil na cotação atual).
Outros jogadores, em um tom mais positivo, pediram melhores contratos para os árbitros.
"Acho que provavelmente seria útil se todos trabalhassem em tempo integral", disse o quarterback Aaron Rodgers em 2023.
"Eles têm um trabalho difícil, tomam decisões em tempo real e estão sob tanta pressão quanto os quarterbacks e os kickers", disse Rodgers no programa Pat McAfee Show.
No entanto, nem todos acreditam que essa mudança seja necessária.
O sindicato dos árbitros não divulga os termos financeiros das negociações contratuais, mas acredita-se que os árbitros mais bem pagos da NFL ganham mais de US$ 200 mil (pouco mais de R$ 1 milhão) por ano.
Austro acredita que exigir que os árbitros trabalhem em tempo integral poderia reduzir o número de juízes de elite.
Sabendo que a carreira de árbitro pode terminar repentinamente devido a lesões ou rebaixamento de categoria, muitos não gostariam de abandonar seus empregos regulares e mais estáveis, explica ele.
Como a pós-temporada da NFL é muito mais longa do que a temporada regular de 18 semanas, os árbitros se beneficiam de um "período de descanso" para se recuperarem entre janeiro e maio, quando a liga não pode contactá-los.
- "Inspira confiança" -
Ao término da temporada regular, os árbitros que se destacaram mais são recompensados com jogos importantes nos playoffs.
O processo é baseado no mérito, mas confidencial, e acredita-se que o chefe de arbitragem da NFL, Ramon George, tenha a palavra final sobre quem vai apitar o Super Bowl.
Shawn Smith, o escolhido para esta edição, ocupa o cargo de árbitro principal há oito anos, a posição mais importante entre os juízes em campo.
"Ele tem um bom controle do jogo, inspira confiança", diz Austro.
O próprio Smith recusou o pedido de entrevista, dizendo à AFP que os árbitros da NFL "não estão autorizados a dar entrevistas durante a temporada".
Ele espera dar continuidade a uma pós-temporada em que as decisões da arbitragem foram quase sempre indiscutíveis, com uma importante exceção.
O Buffalo Bills continua reclamando que o passe de Josh Allen na prorrogação contra o Denver Broncos não deveria ter sido considerado uma interceptação, decisão que provocou a eliminação da equipe dos playoffs.
"Foi definitivamente uma interceptação (...) pareceu bastante óbvio", diz Austro. "O número de vezes que eles acertam essas decisões é simplesmente impressionante".
F.Lecce--IM